Leitura filosófica do filme “Matrix” / Heitor VS Térmitas soldado

Era uma vez um hacker que tinha uma “farpa na mente”, um questionamento ininterrupto, e que escondia softwares piratas em um livro de fundo falso. Seu nome é Thomas Anderson , um competente analista de sistemas de informática, que nas horas vagas atua como hacker de nickname Neo e pesquisa em busca da resposta para uma pergunta que constantemente o intriga: O que é a Matrix?

A “farpa na mente” de Neo, a sua dúvida e angústia são esclarecidas por Morpheus no primeiro diálogo entre as duas personagens: Morpheus: Finalmente, bem-vindo, Neo; como você deve ter adivinhado, eu sou Morpheus. Neo: É uma honra conhecê-lo. Morpheus: Não, a hora é minha, por favor, venha, sente-se. Eu imagino que você esteja se sentindo um pouco como a Alice, entrando pela toca do coelho. Neo: Você tem razão. Morpheus: Eu vejo nos seus olhos, vïcê tem o olhar de um homem que aceita o que vê, porque está esperando acordar, ironicamente, não deixa de ser verdade. Você acredita em destino, Neo? Neo: Não. Morpheus: Porque não? Neo: Não gosto de pensar que não controlo minha vida. Morpheus: Sei exatamente o que quer dizer, vou te dizer porque está aqui. Você sabe de algo, não consegue explicar o que, mas você sente, você sentiu a vida inteira. Há algo errado com o mundo, você não sabe o que é, más há, como um zunido na sua cabeça te enlouquecendo, foi esse sentimento que te trouxe até mim. Você sabe do que estou falando?

Neo: Da Matrix? Morpheus: Você deseja saber o que ela é? A Matrix está em todo o lugar, a nossa volta, mesmo agora, nesta sala, você pode vê-la quando olha pela janela, ou quando liga a sua televisão, você sente quando vai para o trabalho, quando vai a igreja, quando paga os seus impostos. É o mundo que foi colocado diante dos seus olhos para que você não visse a verdade. Neo: Que verdade? Morpheus: Que vïcê é um escravo, como todo mundo, você nasceu num cativeiro, nasceu numa prisão que não consegue sentir ou tocar, uma prisão para a sua mente. Infelizmente, é impossível dizer o que é a Matrix. Você tem de ver por si mesmo.

Bilhões de pessoas vivendo suas vidas distraídas. Você sabe que a primeira Matrix, foi criada para ser o mundo humano perfeito, onde ninguém sofreria, onde todos seriam felizes? Foi um desastre. Ninguém acuitou o programa, perdemos safras inteiras [de humanos servindo como baterias]. Alguns acham que não tínhamos a linguagem de programação para descrever o seu mundo perfeito. Mas eu acho que como espécie, os seres humanos definem a realidade através da desgraça e do sofrimento.«: Agente Smith.

Essa série [Trilogia Matrix] remonta à República, de Platão. Por acaso, Matrix não repete exatamente o artifício da caverna de Platão (seres humanos comuns, prisioneiros, firmemente amarrados aos seus assentos e forçados a observar os movimentos imprecisos de algo que eles (erroneamente) consideraram realidade)? A diferença importante, claro, é que quando alguns fogem da caverna e chegam à superfície da Terra o que encontram lá não é mais um plano brilhante e iluminado pelos raios do sol, o Bem supremo, mas o desolador “deserto do real”

Escrita há 2400 anos, a alegoria mítica de Sócrates, narrativa deste com Glauco, apresenta uma comunidade sujeita a uma realidade particular, um conjunto de sombras, fruto da projeção de luz sob os humanos que habitavam a parte exterior da caverna. Supondo que um deles liberta-se e se depara com um mundo que ele não reconhece e não acredita. Livre, ele sofre, pois não aceita aquela que, para ele, não é a verdadeira natureza da realidade. Tal recusa é representada por Cypher que “abre mão” da liberdade e da realidade da Nabucodonosor, para voltar reencarnado ou “revirtualizado” como ator na Matrix. Cypher, “resgatado” da Matrix muito jovem, viveu à mercê da dura realidade da Nabucodonosor15 e de Zion – nada atrativos perto da Matrix – e opta por voltar a ser plugado, opta pela “ignorância”, dizendo: Cypher: Sabe, sei que este bife não existe. Sei que, quando eu coloco na boca, a Matrix diz ao meu cérebro que ele é suculento e delicioso. Após nove anos, sabe o que percebi? A ignorância é maravilhosa. Agent Smith: Então negócio fechado.

Correção da Ficha de trabalho sobre “Heitor VS Térmitas-soldado”

  1. Heitor enfrentou Aquiles voluntariamente; o seu comportamento foiintencional. Heitor enfrenta Aquiles voluntariamente porquedeseja  (desejo) salvar Troia dos invasores e acredita (crença) que, nas circunstâncias em que se encontra, enfrentar Aquiles em combate é uma maneira de evitar que os invasores consigam o que querem e um dever para com os seus concidadãos (a que não deseja fugir).
  2. O louvor de Heitor é justificado porque: 1) Heitor não tinha inevitavelmente de enfrentar Aquiles em combate; podia seguir outro caminho: por exemplo, fingir-se doente e recusar-se a combater. Tinha, portanto, cursos alternativos de ação ao seu dispor; 2) Optar por um ou outro desses cursos alternativos de ação apenas dependia de Heitor: é ele o autor das suas ações. Heitor não nasceu herói; tornou-se herói ao decidir sê-lo. Entende-se por curso alternativo de ação qualquer opção que esteja disponível ao agente e que este possa pôr em prática.

3.As térmitas não merecem louvor porque: 1) As térmitas-soldado comportam-se sempre da mesma forma quando o seu formigueiro está em perigo. Mesmo que quisessem não poderiam evitar agir assim porque é essa a sua natureza. O seu comportamento é causado pelo programa genético que herdaram e que exclui que elas adotem outros cursos alternativos de ação sempre que o formigueiro é atacado; 2) O curso de ação adotado não depende delas: as térmitas-soldado não escolheram sacrificar-se para salvar as outras térmitas. Isso foi-lhes imposto pela sua natureza (os seus genes).

4.Isto dá-nos a seguinte definição: um agente pratica livremente uma ação X se e somente se: 1).Tem ao seu dispor mais do que um curso alternativo de ação; 3) Está sob o seu controlo  (apenas depende dele) praticar ou não a ação.

  1. Entendida deste modo, a liberdade é sinónimo deautodeterminação. Um agente possui autodeterminação quando é ele próprio (auto) que faz acontecer (determina) a ação. É isto que significa dizer que temos nas mãos o nosso destino ou que somos os autores do que virão a ser as nossas vidas. Supomos ser os autores da pessoa em que nos tornámos porque podíamos ter escolhido outro rumo para a nossa vida (condição 1) e ainda porque nos coube realmente aúltima palavra na escolha do caminho que seguimos, e a ninguém mais (condição 2).
  2. Valores: Se Heitor não tivesse a personalidade que tinha (honesto, corajoso, com um forte sentido de responsabilidade para com os seus concidadãos, etc.) talvez optasse por fingir-se doente para não enfrentar Aquiles. A coragem, a honestidade e a responsabilidade são características que refletem a personalidade de Heitor.

About IsabelAMD

Professora de Filosofia
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